A língua de Consuelo

É comum afirmar-se que as fronteiras mais antigas da Europa são as existentes entre a Espanha e Portugal e que estas viriam a ser “quase” inalteráveis desde a idade média. Esse “quase” transparenta pequenos movimentos de fronteira que provocaram a criação de ilhas lusófonas no Reino de Espanha, algumas das quais chegaram até os nossos dias.

 Em 2009, três investigadores galegos, reunidos no coletivo glu-glu, decidiram visitar essas ínsulas para conversar e gravar as pessoas que ali moram e ainda falam português. Esse trabalho transformou-se num documentário, de nome Entre Línguas, que recentemente foi disponibilizado na Net.

Subim ao youtube um dos vídeos que mais me impactou e que aparecem nos extras. Nele entrevistam uma mulher idosa, de nome Consuelo, e que nasceu e mora em Almedilha, província de Salamanca.

 Animo o leitor, a leitora, a visionar o vídeo, sobretudo entre os minutos 3:30 e 5:00 e que repare em dous aspetos: como fala a Consuelo? Que fala, que nos está a contar?

 A respeito da forma, de como fala, reparamos que o seu “português” recolhe fenómenos fonéticos (a gheada) e palavras (bueno) que não existem em nenhuma variante de português de Portugal. De facto, se eu não tivesse advertido do caráter lusófono da Consuelo, todas nós coincidiríamos em que a simpática mulher é galega e o debate divagaria, talvez, em volta do seu lugar de procedência. Ora, talvez algum de vós desconfiasse da sua galeguidade polo uso de palavras que na Galiza só usam os ditos reintegracionistas, como Notas em lugar da forma castelhana Billetes para se referir ao dinheiro em formato de papel.

 Ora, mais interessante ainda do como é, é o que ela diz. Ela afirma que sempre fala português e que quando vai a Coimbra, à Guarda, a Santiago de Compostela ela não muda o seu registo… porque, afinal, nesses lugares também falam português. Na verdade, o silogismo é simples. Se eu falo X nos lugares Z, Y e G, e eles respondem-me no que eu falo, nesses lugares também falam X. Portanto, os galegos falamos português. É duma simplicidade maravilhosa.

 Na Galiza temos tendência a decalcar a fronteira política sobre a linguística tornando a nossa língua mais pequena e fraca, com os resultados que todas sabemos e sem saber mui bem que ganhamos com isso. A Consuelo não transita por aí porque ela tem uma vantagem sobre todas nós: não passou polo sistema educativo galego.

http://sermosgaliza.com/?p=643

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Dous anos para perder trinta.

Primeiro momento, ano 1980. Som aprovadas as Normas Ortograficas do Idioma Galego, de tendência reintegracionista e ortografia espanhola, elaboradas pola Comision de Linguistica designada pola Conselleria de Educacion e Cultura da Xunta de Galicia. Da Comissom formavam parte representantes de ambas as sensibilidades a respeito da nossa identidade linguística.

Segundo momento, ano 1981. Eleiçons ao Parlamento da Galiza: Alianza Popular (26 assentos), UCD (24), PSOE (16), Bloque-PSG (3), Esquerda Galega (1), Partido Comunista de Galicia (1). Presidente: Gerardo Fernández Albor, de Alianza Popular.

Terceiro momento, ano 1982. Decreto 173/1982 sobre normativizacion da lingua galega oficializa as Normas Ortográficas e Morfoloxicas do Idioma Galegoelaboradas nesse mesmo ano por umha Comision Mixtaformada por representantes do ILG (Instituto de Lingua Galega) e a RAG (Real Academia Galega).

Três anos, em termos históricos, nom é assim muito tempo mas é o suficiente para alterar os mapas da história e, o que é pior, os mapas mentais de 30 gerações de galegas e galegos

Dezembro 2011.

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Agal, reintegracionismo e futuro

A Agal e o reintegracionismo merecem umha história. Ora, qualquer observador superficial pode entrever um alargamento do movimento social que vive a nossa língua como sendo mundial, superando o esquema pouco interessante das quatro províncias.

Cada vez é mais difícil reduzir-nos a estereótipos, seja ao formato académico ou ao soberanista. Para isto têm contribuído muitas entidades sociais e muitas pessoas individuais cuja açom tem tornando o nosso movimento mais rico, mais profundo e mais imprevisível.

Umha das grandes apostas do atual conselho da AGAL foi no capital humano profissional. A nossa estratégia tem sido combinar o capital humano profissional em áreas chave como a própria direçom, com a voluntário, presente em todas as secçons. Nom por acaso, a Agal deve ser umha das associaçons mais ricas em envolvimento dos seus associados e associadas.

Para crescermos, a Agal e o reintegracionismo todo, precisamos de mais recursos, quer financeiros, quer humanos. Precisamos de pessoas que tenham em foco o avanço da estratégia luso-brasileira. Para abordar esta necessidade, na AGAL, estamos a elaborar umha Campanha de Filiaçom que sairá à luz em começos de 2012, dirigida a pessoas que seguem os nossos passos e aderem à nossa estratégia mas ninguém as convidou, ainda, a fazer parte do nosso projeto.

O resultado desta campanha será investido em capital humano profissional para poder fazer MAIS e nas melhores condiçons porque o futuro está aqui.

Quanto ao presente, está a mostrar que a estratégia autonomista, a que se está a implementar a partir das instituiçons, tem um alcance limitado senom recorre a ferramentas, discursos e óticas da estratégia lusófona. Felizmente, há cada vez mais pessoas nas equipas de NL a tomar consciência disto e a Agal pode ser, já está a ser, um bom centro de recursos.

O mais atrativo que nos depara o futuro é a emergência do Brasil, portanto da sua/nossa língua. O Mundial de futebol, as Olimpíadas e a escalada em PIB do gigante brasileiro vam tornar a língua da Galiza umha vantagem competitiva como antes nunca tinha acontecido. Em ambientes onde era vista como umha incomodidade, começará, já está a o fazer, a ser percebida como umha fortaleza e umha oportunidade.

A questom é se somos capazes de aproveitar essa maré ou se deixamos que passe ao lado. Creio que nom seria exagerado dizer que o futuro da nossa língua e o desenho do nosso mapa linguístico a médio prazo vai-se jogar nos próximos anos.

Ligar o Brasil ao galego, ao português da Galiza, será o grande desafio a curto prazo do reintegracionismo e das entidades que promovem a nossa língua, seja da estratégia que for. Em todas as dinâmicas sociais, políticas e económicas que se vam criar, a Galiza e a sua língua, devem ter um lugar de destaque.

No Conselho da Agal estamos a desenhar campanhas e recursos para tornar evidente, Ops!, o que está oculto. O nosso alvo tem de ser o cidadao comum e as elites que tomam decisons.

O atual Conselho tem demonstrado que quando a atitude é a certa, os muros passam a ser portas que se abrem sem grandes dificuldades.

O reintegracionismo, em si, tem demonstrado que se, em lugar de lamentos, debates intermináveis e exaltaçons do ego, apostamos por FAZER, a nossa vida é mais rica e a saúde social da nossa língua é melhor.

A nossa língua éMundial.

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Quotidiano

É sábado e a Marisa ergue-se às 10:00. O despertador canta aquilo de “Avião sem asa, fogueira sem brasa…” da maravilhosa gaúcha Adriana Calcanhoto. Com a melodia na cabeça toma duche e depois vai até à cozinha preparar o almoço.

Como fai regularmente, abre o Chuza para ver as notícias selecionadas pola comunidade, especialmente as de Galegoman. No jantar com a malta poderá contornar os temas enlatados e bater papo sobre temas originais, mais oxigenados.

Pega no carro, acende o rádio e sintoniza Galicia por diante, umha entrevista dirigida por Belén Regueira sobre novas profissons. Fai vários recados e vai jantar com o pessoal, onde uma das notícias do Chuza provoca uma conversa intensa dessas do tipo: temos-que-salvar-o-mundo.

De tarde, nom deveria porque é sábado, mas quer preparar uma boa aula sobre história medieval. Abre a wikipédia e procura um artigo sobre Joana a Beltraneja, onde descobre que em Portugal recebe o nome de Joana de Trastâmara ou a “Excelente Senhora”… sabemos como é, a história é de quem a escreve.

Gosta de ouvir música enquanto trabalha, abre a Cotonete e cria uma rádio com Buraka Som Sistema. Na verdade, nunca soubem como é capaz de trabalhar com o Kuduru de fundo… mentes som insondáveis.

Som já às 20:00 horas e duvida entre sair com o pessoal a tomar um licor café ou ficar na casa a ler um livro… ganha a leitura, por uma vez. Pega no último livro da Trilogia Millenium, A Rainha do Castelo de Ar, está mesmo enganchada e hoje dará cabo dele.

Um dia qualquer, de uma pessoa qualquer, cada vez mais comum na Galiza.

novembro 2011

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Estaçons de Comboio

Comboio Vigo-Santiago. Um homem e umha mulher por volta dos 60 anos vam a conversar. Tinham subido em Vigo e acabarám por descer em Ponte Vedra. A conversa flui sobre o comboio e as diferentes estaçons da rede galega. Ambos discursam num castelhano mui genuíno com umha ressalva. Quem fornece mais informaçons é o homem, que recolhe o seguinte hábito: quando se refere às estaçons citadinas (Vigo, Ponte Vedra, Santiago) usa o castelhano mas quando fala das paragens mais pequenas (Guilharei ou Cesantes) recorre ao galego.

Para esta pessoa, e sabemos nom é um caso isolado, o dialeto de Burgos (diga-se castelhano) tem umhas associaçons e o da Galiza tem outras. O esquema nom é mui diferente das cores do cabelo, o tipo de automóvel ou o celular (antigamente era mais o relógio).

Assim sendo, há paragens mais interessantes do que outras mas tudo depende das pessoas que pegarem no comboio.

Há pessoas que nom descem em certas estaçons porque acham serem um problema e que deveriam ser eliminadas da linha porque som um atraso. Para outras pessoas, polo contrário, som a quinta essência que justifica a existência de toda a rede. Há outro grupo a julgar que as estaçons devem ser conservadas como uma peça de museu: ver mas nom usar. Por fim, estám os que se sentem afortunadas porque o comboio leva-nos a lugares distantes que nom aparecem no mapa oficial. Como o vives tu?

Outubro 2011

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Jornais a e jornais B

Gonzalo Vilas, no Novas da Galiza de setembro,

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Dentro de 20 anos ou agora.

Dentro de 20 anos ou agora

Umha das marcas mais claras para caraterizar a seriedade dos projetos, se falamos em criar umha língua nacional, tem a ver com o modelo de língua utilizado. Umha das marcas mais claras de que algo nom funciona na Galiza a este respeito é o lema: dentro de 20 anos (D20). Esta estado de ânimo, às vezes filosofia e outras praxe política, descansa no seguinte trípode:

  1. Para construir umha língua nacional galega esta tem que ser soberana a respeito do castelhano.
  2. Nós temos a fortuna de dispor desse formato de língua no Brasil e em Portugal, o que é incomum em contextos como o nosso.
  3. Mas nom podemos implementá-lo ainda.

O ponto mais frustrante do D20 é que nom tem um cronograma nem umha política de açons para nos oferecer: agora nom é possível mas talvez o seja num futuro. Porém, nom está previsto quando nem como. Nom é mui aliciante, nom.

Felizmente, o reintegracionismo move-se noutra dinâmica: Just do it! (fai-no) e de aí surgem projetos motivadores como o Novas, os locais sociais, os aPorto, os Ops, a AGLP, Sei o que, Edições da Galiza, a Galicola e muitos outros nomes que caminham connosco.

Recentemente, impulsionada pola Gentalha do Pichel, apareceu na cena a escola Semente e apareceu porque os pais nom podem garantir um ensino em galego para os seus filhos e filhas. Havia vários opçons, podia ser um DEBATER, podia ser um LAMENTO, podia ser um PACIÊNCIA mas foi, felizmente, um AGORA.

Setembro 2011


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Cinco Dias

Se pegamos num dicionário eletrónico de português e pesquisamos as palavras que som de origem castelhana, a número resultante situa-se por volta do milhar. A maioria dos verbetes entrárom no período dos Filipes, esses 60 anos em que o rei de Portugal e o de Castela foi o mesmo, sendo precisos, 1580-1640. Foi um espaço histórico em que o contato entre a sociedade portuguesa e a castelhano foi intenso e tivo um eco linguístico.

Recentemente, começou o aPorto 2011. Assistim a todas as atividades sócio-culturais em qualidade de observador. Desfrutei, e muito, dos percursos históricos, mesas redondas, teatro, ateliês, comeres e beberes mas, deve ter algo de vírico, o meu gozo maior nasceu da observaçom e da conversa com os alunos e as alunas.

A motivaçom de alguns deles era aprender a falar como o fai um português, tal qual. Outras, polo contrário, perseguiam contrastar o seu galego com o de Portugal e descobrir a melhor forma de comunicar sem interferências mas sem alterar lá muito o seu sotaque.

Seja qual fosse a intençom, esta nem sempre coincidia com a prática. Havia pessoas que queriam falar à portuguesa mas acabavam por falar à galega (para alguns deles umha açom infrequente) e havia os do segundo grupo que acabavam imitando o falar dos amigos e amigas do Porto.

Ora, o mais interessante na causa que nos ocupa é que todos eles fizeram descobertas relativamente ao que nom funcionava em termos comunicativos. Na imensa maioria dos casos eram castelhanismos que passavam a substituir por vozes genuínas com umha facilidade imensa… e nom fôrom 60 anos, apenas cinco dias.

Agosto 2011

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éMundial

Entre os dias 4 e 9 de julho, a Agal, a associaçom que presido, organizou o éMundial. Fôrom mesas redondas, música, projeçons, dança, conta-contos, exposiçons… eventos de diferente natureza com umha finalidade central: mostrar que a nossa língua é Mundial.

Por que organizamos o éMundial? Porque os galegos e as galegas fomos e somos educados na crença de que a língua que falo no meu dia a dia nom é a mesma língua que a da amiga Jeanne, da Bahia, ou a da Aline, de Luanda. O que nunca nos explicárom é que ganhamos com esta perspetiva.

O guiom que escrevem para a nossa língua é que nom sai dos limites do estado espanhol, onde está enclaustrada. Fala-se no ocidente das Astúrias ou de Samora, mesmo nalguns lugares da Extremadura mas nom se fala em Chaves ou em Valença, ou no Brasil ou em Angola. Mais umha vez pergunto-me: e que ganhamos nós com isso?

É o mesmo guiom que nos diz que nom serve para todas as cousas, para ler um autor estrangeiro, para ver filmes legendados, para usar o computador ou navegar na rede… É o guiom que nos apresenta a nossa língua como um problema e umha incomodidade quando realmente é umha riqueza e umha oportunidade. Ser galego, ser galega, na verdade, é espetacular. Ser da Galiza éMundial.

Julho 2011

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TVs portuguesas na Galiza. 1+1=3

Recentemente a nossa associaçom editou um periódico, o Fest-Agal, que foi distribuído gratuitamente no dia da Pátria. A reportagem central versava sobre iminente receçom das Tvs portuguesas no nosso país. Incluía umha colaboraçom da jornalista e sócia da Agal, Comba Campoi, entrevista fictícia com Catarina Martins, deputada do Bloco de Esquerdas que se somou à encenação e umha descriçom do processo a cargo de um moderno Rafael Bordalo Pinheiro.

A nossa intençom, ao estilo orsonwelliano da Guerra dos Mundos, era criar umha realidade. Comentava o sócio-linguística basco Txepetx no curso de verao organizado recentemente pola UdC que é preciso haverem pessoas que sonham, haverem pessoas que transportam os sonhos e pessoas que os vendam. Mas o passo primeiro é imprescindível.

Para a nossa surpresa, muitíssimas pessoas acreditaram na veracidade da notícia e chegaram-nos emails a manifestar entraves para a correta sintonizaçom dos canais. Isto implica umha mudança de paradigma, a fase de criar sonhos está superada, agora resta transporta-los e vendê-los.

Que temos a ganhar como sociedade galega, com a receçom das Tvs portuguesas?

Para as pessoas e entidades envolvidas na promoçom social do idioma, aqueles e aquelas que aspiramos a que se torne a língua hegemónica do nosso país, a visualizaçom das TV de Portugal muda o esquema. Perante a realidade atual em que a grelha televisiva oferece por volta de 40 canais, sendo apenas dous deles na nossa língua, a receçom dos principais canais portugueses vem a equilibrar um bocado a presença da língua que nasceu no Reino da Galiza, a ambos os lados do rio Minho.

Umha outra consequência positiva desta presença vai ser o contato com palavras e registros genuínos da nossa língua, o que será um reforço para o seu uso. Durante séculos, os galegos e as galegas escondemos palavras e expressões polo facto de nom existirem em castelhano e dificultarem a comunicaçom com os falantes dessa língua. Esses mesmos recursos que escondemos e esquecemos som os naturais na Lusofonia, os naturais nas TV de Portugal. A sua audiçom e visualizaçom permitirá portanto lembrar o que esquecemos, e reforçar o que sabemos mas temos receio a utilizar, por temor a nom ser compreendidos.

Por fim, a nível de identidade, a receçom das Tvs de Portugal cria ligações com a sociedade portuguesa ao passarmos a compartilhar experiências culturais e de lazer, da mesma forma que a receçom das Tvs espanholas provocam ligações com as sociedades do Reino de Espanha. Os relacionamentos com a sociedade portuguesa, com qualquer sociedade lusófona torna-nos mais ricos e fortalece a cultura e a língua nacional.

Somar sempre é positivo. A nossa intuiçom matemática diz-nos que 1 + 1 = 2 mas, quando se trata de somar a Galiza e a Lusofonia, as matemáticas convencionais nom servem.

1+1 = 3

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