O pêndulo das feiras

A Gentalha do Pichel vem de lançar um documentário sobre os dias da semana chamado Quarta-feira logo vem, recolhendo gravaçons de pessoas que ainda utilizam esta forma de denominar os dias da semana em diferentes pontos do país.

Este sistema é, de facto, um caso único na Europa e podia ser desses casos únicos que tanto transtornam e seduzem os etnógrafos e os amantes do authentically galician, umha espécie sem perigo de extinçom na Galiza.

Infelizmente, neste caso a seduçom nom deveu funcionar a jeito. Se assim fosse, nom seria considerado, polos alunos galegos de português língua estrangeira, como um dos traços mais genuínos e cativantes da dita língua estrangeira.

Se revisamos a história do galeguismo, veremos umha constante “pendular”. Umha pequena elite galeguista coloca em circulaçom umha palavra, por exemplo, galego, Galiza ou segunda-feira e nom demora muito a ser tachada de estrangeira e alheia polo Statu Quo, latinismo este para referir-se aos que mandam.

Eis o seguinte texto de Eugénio Carré, que já tem 101 anos, para abonar este pêndulo:

“Fue de oir lo que se dijo contra los que venían decididos á volver por la pureza y elegancia del lenguaje. Verdaderas enormidades, que provocarían á risa sino dieran tristeza por el atraso intelectual que acusaban, vieron la luz, no siendo la menor la de quienes á los restauradores de la pureza del idioma tildaron de aportuguesados y á las voces de más pura cepa gallega (…) no tuvieron inconveniente de tildar de lusitanismos, antes que confesar la ignorancia en la lengua de sus padres. [NOTA: No se juzgue que exageramos. Para los que recuerden ciertas campañas, no será desconocido el caso de quien, tenido en concepto de muchos por una celebridad, negó en varios artículos que palabras tan gallegas y generalizadas en toda la región como abafar, outono y segunda y terceira feira, fuesen palabras gallegas]”

Julho 2012

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Braveheart, De Gaulle e a Lusofonia

É comum ouvir comentários sobre a veracidade dos filmes históricos. Afinal, os víquingues nom usavam capacetes com cornos, no faroeste nom havia duelos com pistola e a saia escocesa, o kilt, surgiu no s. XVI, vários séculos depois do momento histórico em que está ambientado Braveheart.

Um dos momentos que mais chamara a minha atençom deste último filme tem a ver com a batalha final, imprescindível num filme épico de gema. De um lado, os escoceses, do outro os ingleses com mercenários bretões que som lançados em primeiro lugar à batalha. Quando parece que ambas as fações vam chocar na maior das violências, param, começam a rir e dam em se abraçar. Afinal som todos celtas, nom som? A indústria do entertainment é assim.

Do outro lado o Atlántico, já nos anos 60, o Quebeque estava a viver a sua primeira efervescência nacional: estavam a ser menos canadianos e mais quebecois. Em 1967, o presidente francês Charles De Gaulle visita Montreal e acaba o seu discurso perante a massa enaltecida com um inflamante: Vive le Québec libre, recebendo doses de calor quebequês e de frialdade canadiana na mesma proporçom.

Alguém imagina Dilma Rousseff a exclamar Viva a Galiza livre? Eu nom, com certeza. Seja como for, há umha diferença fundamental entre Braveheart e De Gaulle. As solidariedades, ou melhor, os interesses comuns, nom surgem apenas de compartilhar umha língua ou umha “etnia”. O autêntico motor som as relações reais, as trocas, o contacto. Neste sentido, o cidadao médio da Galiza nom é muito diferente com o cidadao médio de Torrejón de Ardoz a resepito da Lusofonia. Da mesma forma, as instituições galegas, públicas e privadas, políticas, culturais ou profissionais nom têm em foco… os nossos quebequeses.

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Para quê?

Umha das bondades do facebook é oferecer debates interessantíssimos sobre todos os temas por parte de nom especialistas. Até a mim chegou um deles polo facto de ser citado na conversa e a linha central da mesma era, em termos mais ou menos técnicos, se havia que aceitar o grau de castelhanizaçom das falas galegas ou, polo contrário, havia que criar um modelo de língua que oferecesse em seu lugar formas genuínas, ainda que estas nom estivessem generalizadas socialmente.

É um debate antigo. Pode-se rastrejar na nossa história desde a segunda metade do s. XIX. No caso da conversa citada, eram dous adolescentes a sustentar ambas as posturas, o que é esperançoso.

Na verdade, partamos de umha evidência: o mais fácil é falar como se ouve e escrever como se lê. Reconheçamos que ouvir ao longo de um mês 100 vezes a palavra “silla” e dizer “cadeira” ou ler “inglés” e escrever “inglês”, nom deixa de ser um ato de vontade, para alguns heroico, para outros caprichoso.

Porque haveríamos de fazer esse esforço? Porque nom se deixar arrastar polo rio e sentir a calidez da corrente fluvial nas nossas costas…bom, essencialmente porque o rio acaba numha fervença de cem metros de altura com uns rochedos ao fundo.

A grande pergunta que nos temos que fazer, individual e coletivamente, é para que queremos a língua que estou a escrever. As respostas a esta pergunta som numerosas. “Para falar com os colegas”, “Como um símbolo de galeguidade”, “Para fazer mapas de isoglossas”, “Para que me a Junta me pague o letreiro Froitas Seoane ”, “Para viver nela dia a dia”, “Para que seja a língua nacional da Galiza”.

Se somos sinceros com a nossa resposta, o debate sobre que fazer com a castelhanizaçom patente da nossa variante linguística, desenreda-se e flui serenamente como os rios sem centrais hidroelétricas.

Maio 2012

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Onde aponta o dedo?

Na hora de fazer uma análise, de fazer uma crítica, é importante na direçom em que aponta o dedo.

Mais de umha vez, depois de dar umha palestra ou no interior de umha conversa mais ou menos longa, algum interlocutor tem chamado a atençom para o uso abundante que fago da palavra OK, quase sempre com certa aspereza. “Isso é inglês”, “isso nom é autêntico”. Asperezas similares encontram-se em elites do galeguismo perante os galicismos do português. “Isso é francês”, “Isso nom é autêntico”. É louvável tanto desejo de autenticidade, seja dito de passagem.

Se deixasse sair o lado obscuro que todos temos (seja também dito de passagem), argumentaria “bom, se de autenticidade se tratar, que tal se deixamos de usar o inglês mitin ou o francês bufanda, ou melhor, os milhares de castelhanismos que agromaram no nosso país e de que nem somos conscientes?” É provável que ficasse cheio de razom mas a maioria das vezes a conversa entraria num crescendo de decibélios onde as goelas teriam mais protagonismo que as ideias.

Sempre me chamou a atençom a atraçom que o galeguismo histórico sentiu polo português e os países que o falam, atençom que o galeguismo oficial há tempos que enviou para as malvas, essencialmente porque é o preço para sair na fotografia. No entanto, sempre fiquei mais chocado com a fascinaçom que sentiam polos países celtas de cuja comunidade, ao que parece, fazíamos parte.

Longe de mim entrar em debates sobre o celtismo de que pouco sei. Simplesmente queria bater o ponto na atitude: a Galiza Lusófona era, e é, um desafio ao statu Quo, a Galiza céltica nom.

 Onde aponta o dedo?

Junho 2012

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A Morte da Inocência

Um pai galego está na sala da casa familiar a ver um filme de desenhos animados com o seu filho, um fedelho de 5 anos. O filme em questom, com vozes brasileiras, é a Monstros S.A, da Pixar, por sinal muito recomendável para adultos. Depois de 10 minutos de película, o pai pergunta:

  • Estás a entender o filme?
  • Claro.
  • Estám a falar em português, sabias?
  • Nom, estám a falar em galego.

Na mesma semana, tem lugar esta cena num restaurante da zona velha compostelana. Um empregado galego, aí polos 45 anos, atende umha clienta brasileira que escolheu a Galiza para a suas férias. Ambos conectam bem, as conversas fluem entre serviço e serviço: “que lindo que é o caminho de Santiago”, “adoro a chuva, lá de onde venho chove pouco”,“o Brasil é um país enorme”, “tem estado lá?”, “Haverei de ir quando seja mais velho”. A dado momento a clienta comenta um facto que tem chamado a sua atençom:

  • Tenho visto em vários lugares as paredes escritas em português, curioso, nom é?
  • Som uns radicais de por aqui. Dizem que galego e português é a mesma língua.

Maio, 2012

 

 

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Umha língua nom é…

Estamos num concurso televisivo do tipo 1 Pergunta com 3 Respostas. A dada altura, a apresentadora olha para o ecrám e lê em voz alta: umha língua nom é…. As respostas possíveis som três: Pepino, Comunicaçom, Identidade.

É habitual usarem-se metáforas biológicas para descrever a realidade linguística. Costuma fazer-se por duas razões básicas, por afám pedagógico e porque sempre se tem feito assim. Este segundo argumento, como sabemos, nom interessa lá muito.

Como as línguas som seres vivos, “venhem” de outro ser vivo, e assim o galego vem do latim e o português vem do galego, o que nom impede que o português e o galego sejam línguas irmás, o castelhano primo de ambas, o francês umha sorte de primo segundo e o spanglish, supomos, um filho ilegítimo. Como se chama o filme? Paixom de genealogistas.

Outra variante desta metáfora pedagógica gira em volta do ítem “Evoluir”. Da mesma forma que os Neardentais evoluíram de forma diferente que os Homo Sapiens, com a mesma “naturalidade” e “irreversibilidade”, o galego e o português evoluíram de forma autónoma. De aqui à teologia, auto-estrada sem portagens.

O inconveniente fundamental de confundir umha língua com um pepino é que obviamos que as línguas som realidades sociais, e som as sociedades e as suas elites as que as constroem, nom os genomas. Seja dito de outro modo: umha língua nom é um pepino. Se o que se trata é de pedagógia… é plasticina.

Abril 2012

 

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Palavras estranhas que nom nos pegam

  • – Olá, como está a avó?
  • – Está bem, só se queixava de que tinha… como era que dizia?… umha palavra rara das que usa ela….bom, que lhe picava.
  • – Comichom
  • – Ah, sim, comichom.

Esta conversa decorreu na Galiza e, com milhares de variantes, acontece todos os dias. Vem a evidenciar um dos sintomas da fraqueza social da nossa língua: as palavras que som diferentes que em castelhano sofrem erosom e desaparecem. A estratégia diferencialista implementada a partir das instituiçons parece nom ter tido muito sucesso em reverter esta situaçom. De resto, nom admira, os vimes som os que som.

Na cidade da Corunha, recentemente, umhas moças iam a cantar a viva voz: Nossa, nossa, Assim você me mata. Ai se eu te pego, ai ai se eu te pego. Delícia, delícia. Assim você me mata. Ai se eu te pego, ai ai se eu te pego. Depois faziam comentários na sua língua pessoal, o castelhano.

Saberiam que Pegar quer dizer Apanhar e nom Bater? Sei lá, mas se tivessem curiosidade, e pegassem num dicionário, poderiam comunicar com a avó que tinha comichom.

Março 2012

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Que fizeste na guerra, paizinho?

Com este título, o realizador Blake Edwards construiu umha brilhante comédia em tempo de guerra. Um capitám americano é encarregue de conquistar umha estratégica vila italiana. As tropas locais estám dispostas a render-se na condiçom de poderem realizar um grande festival regado com muito vinho.

O livro que vos quero encorajar a ler, percorre também a senda bélica. Guerra de Grafias, conflito de elites, forma parte da tese de licenciatura de Mário Herrero e é o antecipo da segunda parte sobre a substituiçom do galego e a normalizaçom do espanhol na Galiza contemporânea, cuja ediçom está prevista para finais deste ano.

Quando a tese de Mário Herrero caiu nas minhas maos, fiquei a pensar: este trabalho tem de ser editado. A oportunidade apresentou-se com a Coleçom Através da Língua, umha das quatro coleções da Através Editora, carimbo livresco da AGAL.

Na verdade, um ensaio pode vir a encher um espaço vago ou a oferecer novas perspetivas sobre um dado tema. O presente livro está decididamente na primeira categoria. O grosso das pessoas nacionalmente galegas, a priori curiosas pola língua da Galiza, desconhecem todo o processo que levou a que o modelo de língua que emana das nossas instituições, elaborado polo Instituto da Lingua Galega (ILG) ocupasse esse lugar central. Isto tem-se traduzido na legitimidade deste modelo diferencialista e a imagem de outsider do modelo reintegracionista.

Guerra de Grafias descreve os autores e os grupos em volta desta guerra, centrando-se nas décadas de 70,80 e 90 e partindo de umha análise glotopolítica, isto é, as relações entre política (em todos os sentidos) e língua. Neste livro desfilarám os protagonistas desta guerra através das suas ações e também, e isto vai aliciar o(a) leitor(a), através dos seus discursos. Afinal, som as nossas palavras e ações os que nos descrevem e nos colocam num ou noutro lugar do mapa.

Guerra de Grafias mostrará, como no filme de Blake Edwards, que a norma ILG-Rag nom foi concebida para umha guerra a sério… essa é a razom central do seu “êxito”.

 

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Como se siente ahorita?

Na hora de avaliar se umha língua está, na verdade, a funcionar como tal do ponto de vista social, é comum recorrermos a muitas variáveis: presença nos mass media, nos sectores económicos, nas cidades… Umha outra variável e a língua dos forâneos, nomeadamente, no caso galego, dos que chegam fora do Reino de Espanha.

No Quebeque, por citar um caso, a maioria dos imigrantes acabam por aprender francês num prazo relativamente curto. Nom por acaso, na Catalunha, as campanhas de divulgaçom social do catalám costumam incluir pessoas com traços físicos que denotam a sua origem africana ou asiática. Na própria Galiza, o vídeo do Modelo Burela provoca um calafrio de satisfaçom quando aparecem escolares de origens mui diversas a falarem a nossa língua.

Esta semana levei a minha avó de 94 anos a urgências. A facultativa que me atendeu era de origem americana, dalgum país de língua espanhola. A conversa nom correu muito bem, essencialmente porque nom me entendia, o que me obrigou a falar num formato de portunhol (Podia agora divagar sobre os direitos dos cidadaos e as exigências que a administraçom galega devia colocar os seus funcionários).

A médica dirigiu-se à minha avó e perguntou-lhe, sem obter resposta, até três vezes:

Como se siente ahorita?

Se a sinceridade é permitida, mal.

Fevereiro 2012

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Faxín / Fagim

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