Entrevista no Novas da Galiza

http://www.novasgz.com/pdf/ngz80.pdf

RAIMUNDO SERANTES / Um velho colaborador desta casa tornou-se, no mês de Junho, no novo presidente da Associaçom Galega da Língua (AGAL). Encabeça umha lista de pessoas que vem a representar umha ruptura com aquela AGAL mais académica. Com esta candidatura, chegam ao Conselho da associaçom decana do lusismo as novas geraçons deste movimento, vinculadas à docência, os centros sociais e a Internet. É umha viragem que está a levantar grandes expectativas entre a base social do reintegracionismo, em que Fagim é sobretodo conhecido polo livro O Galego (Im)Possível e até por um manual de recentíssima publicaçom: Do Ñ ao NH.

Nos últimos anos, o reintegracionismo parece estar a ganhar apoios sociais bastante significativos, mas a AGAL nunca deu encontrado o seu sítio… porquê?

Na AGAL há diferentes sensibilidades; as de tipo académico e as de género mais social. A correlaçom das duas dinámicas tem provocado que a associaçom nom se tenha manifestado na sociedade de umha forma unívoca. A nossa intençom é impulsionar umha associaçom de tipo social, chegando ao maior número de pessoas de todo o tipo.

Entom, em que se distinguiria a AGAL de umha organizaçom como A Mesa ou os centros sociais?

A Mesa é umha organizaçom centrada na normalizaçom lingüística. Quanto à razom de ser dos centros sociais, esta varia muito; é um mundo bastante heterogéneo ideológica e lingüísticamente, embora todos tentem socializar as suas ideias através desses espaços. A razom de ser da AGAL é ser um difusor do reintegracionismo.

Acabas de publicar um livro em português padrom e diriges umha associaçom que promove umha norma galega dentro do mundo lusófono. Em que medida esta discrepáncia tem travado a expansom da AGAL?

Para a língua galega existem várias estratégias: umha é a galego-castelhana e outra é a galego-portuguesa. Cada umha delas subdivide-se internamente. Por exemplo, na estratégia galego-castelhana nom é o mesmo um Ferrim que um Freixeiro Mato. Dentro da estratégia galego-portuguesa acontece o mesmo: umha é a da norma da AGAL, que parte da base de que ter umha vestimenta ligeiramente diferente pode ajudar a que se espalhe o reintegracionimo e outra é a do Acordo Ortográfico, que parte da base de que, umha vez que todos os países da Lusofonia vam adoptar a mesma ortografia, nós também devemos unir-nos. Tradicionalmente, tem-se dividido a estratégia galego-portuguesa nessas duas tedências, por exemplo, quando é explicada a alguém de fora. Porém, sem negar esta, eu faria outra subdivisom. Pegaria no Manual Galego de Língua e Estilo [que propugna a norma da AGAL] e o livro que acabei de editar [Do Ñ para o NH] e poria-os à frente de umha pessoa. Pode ser que haja quem vaia reparar em que norma estám escritos, mas também há quem simplesmente vaia ver se ambos os livros som úteis ou nom para o reintegracionismo. Esta é a sensibilidade com que eu me identifico. Por isso, no Conselho estám todas as tendências representadas.

Falávamos antes dos avanços do reintegracionismo, mas ainda se encontra mui longe de um objectivo fundamental: ser conhecido polo conjunto da sociedade que está para além destes debates. Que pode fazer a AGAL para solucionar isto desde já?

No nosso programa temos duas áreas que vam ao encontro disto que estás a dizer: Difusom do Reintegracionismo, cujo objectivo é promover a ideia de galego, português e brasileiro serem a mesma língua. A outra área é Difusom da Lusofonia na Galiza. Umha é mais de tipo ‘ideológico-pleno’ que consiste em constatar que galego e português é a mesma língua, fazendo campanhas para irradiar essa ideia. Onde? Pois basicamente no nacionalismo e entre as pessoas que, sem serem nacionalistas, podem ser galego-falantes ou simplesmente sentir afinidade com o português. Mas eu também estou a pensar, por exempo, num cidadao médio de Vigo. Nesta cidade, umha pessoa da minha idade provavelmente fale castelhano, como todas as suas amizades, e provavelmente o único galego que ouça seja o da TVG e o de algum avó, se tiver e se for à aldeia ao fim-se-semana. Para este tipo de pessoas há que defender outro tipo de estratégias, e a nossa seria a difusom da Lusofonia na Galiza. Quer dizer, difundir o que venha de Portugal e do Brasil através de múltiplas vias: música (veja-se Cantos na Maré), literatura ou encontros associativos transfronteiriços… É outra via diferente, em que português e galego partem, em princípio, como línguas diferentes, mas nós estamos convencidos que quando um galego começa a interagir com Portugal cedo ou tarde nascem umha série de ligaçons sem necessidade de empurrar. Disto já tenhem falado muitas pessoas, mesmo algumhas que à partida nom tenhem muito interesse no tema da língua, como recentemente Carlos Núñez.

Pensa-se que as pessoas reintegracionistas vivem numha espécie de prepotência, como se fossem as únicos que ‘estám na onda’, e todas as demais fossem ‘ignorantes’…

É verdade. É umha das minhas autocríticas. Eu próprio tenho participado disto. Às vezes cremos que somos umha espécie de iluminados que chegamos onde nom chega ninguém e acabamos por ter umha atitude quase mormónica. Diria mais: temos falta de humildade intelectual e somos pouco pedagógicos. Desta maneira, por exemplo, nom fazemos o exercício de planificar a nossa expansom, porque, crendo-nos possuidores da razom, preferimos esperar que a sociedade no-la dê algum dia. Esta nom é umha boa táctica.

Julho 2009

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