Efeito surpresa

O seu autor é Edelmiro Moman, profissão… químico.

A chacun, l’âge venu, la découverte… ou l’ignorance. Tri Yann.

Outono de 2003. Santiago de Compostela. Semanas antes entregara nos escritórios do terceiro clico o manuscrito da minha tese de doutoramento. Do Departamento de Química avisam-me de que há um problema. Vou falar com uma funcionária de terceiro ciclo. O problema é que, segundo ela, a minha tese está redigida em português. Eu digo que é galego. De facto, eu nunca estudei português.

Setembro 2004. Bolonha, Itália. Vou-me inscrever em capoeira. Falo com o mestre Chiquinho. Em galego, naturalmente. Ele pergunta: “Onde apreendeu você português?”. Eu contesto: “São galego, da Galiza”. Os capoeiristas brasileiros ficam a olhar pra mim. O mestre Chiquinho era professor de história no Brasil. Na Itália ele é mestre de capoeira e professor de português. No dia seguinte começo o adestramento. Chego tarde. Mal entro pola porta, o mestre Chiquinho informa o pessoal, fala italiano: “Quero que conheçam o novo aluno, Miro. Ele vem da Galiza. O português nasceu na Galiza, assim que ele já fala português”. O mestre Chiquinho documentara-se. Quarenta pessoas ficam sabendo.

Maio 2007. Estrasburgo, França. Cafetaria do cinema Odyssée. Chega Béliza, vicepresidenta da Chama (“amicale” de estudantes lusófonos). Béliza é luxemburguesa de pais portugueses. Falamos francês, depois castelhano e finalmente galego. Béliza figera um Erasmus na Andalucia, mas pouco sabia da Galiza. Fica maravilhada da proximidade entre a língua da Galiza e a de Portugal.

Junho 2008. Luxemburgo. Michel é luxemburguês. Ele trabalha para o banco proprietário do apartamento do que somos inquilinos. Estamos a fazer o “état de lieu”. Falamos francês. Ambiente formal. Ele recebe uma chamada. Fala português. Quando desliga, aproveito para continuar a conversa em galego, com naturalidade. Ambiente muito mais distendido. Cordialidade. Cumplicidade. Michel é filho de portugueses.

Outubro 2009. Luxemburgo. Festa do Samhain na nossa casa. Chega Nuno, da Madeira. Não nos conhecíamos. Tenta falar comigo em castelhano. Contesto em galego. Nuno: “Mas você fala português!”. Eu: “O que eu falo é galego”. Nuno: “Mas você está a falar português…”. Eu: “Galego”. Nuno: “Então é a mesma língua”. Eu: “Será”. Outros convidados perguntam que língua estamos a falar.

Novembro 2009. Luxemburgo. Saímos duma festa cas dum colega inglês. O Nuno, Alcinda, tradutora do Porto, e mais eu imos falando galego. Apanhamos o bus. Eu não tenho bilhete. Não há problema. O chofer é português. Essa noite os galegofalantes viajam grátis.

Janeiro 2010. Luxemburgo. Uma discoteca de Clausen. Chega Marília, tradutora do Porto. Fala francês, depois inglês. Chega Alcinda, fala português. Passamos todos automaticamente a falar galego. Vamos dar num restaurante português. Somos uma dúzia de pessoas de distintas nacionalidades. Um maltês pergunta em que raios de língua estamos a falar.

Fevereiro 2010. Luxemburgo. Festa cas duma colega eslovena. Nuno, Vlasta e mais eu falamos galego. Carlos está estranhado. Ele é cubano e não sabia que os galegos e os portugueses podiam-se entender tão bem. Nuno aclara que é a mesma língua. Rebecca, inglesa, repara em que o sotaque é diferente. Não mais do que o inglês de Manchester e o inglês de Dallas. Videlina, búlgara, dá por feito o galego ser um dialecto português. Explico que é justo ao invés, o português é um dialecto galego. Rimos.

Poderia continuar, mas antes digam-me, por favor, qual é o sexo dos anjinhos?

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