33% Logronho

Imaginemos um país com as seguinte características: temperatura média de 23º, poucos rios e escasso vento. Num momento dado o seu governo decide apostar nas energias renováveis. Após as pertinentes análises e deliberaçons, um comité de especialistas nomeado polo executivo decide investir 70% do orçamento em aerogeradores, 20% numha central hidráulica e 10% em painéis solares. Que pensaríamos de um governo assim?

Em geral as pessoas esperamos dos nossos governos, nomeadamente nas democracias ocidentais, que fagam a melhor gestom possível dos recursos e potencialidades do território e sociedade que administram.

O nosso governo vem de decidir que no ensino secundário 33% das aulas sejam em galego, 33% em castelhano e 33% em inglês.

Umha primeira questom que coloca dúvidas é o facto de as três línguas terem a mesma quota horária. Teria sentido se o domínio que os escolares galegos tenhem das três fosse o mesmo. Sabemos que nom é assim. O domínio vem dado em grande medida pola sua presença social. É mais fácil dominar umha língua ambiental que umha que nom tem presença no ambiente que nos rodeia. Assim sendo, sabemos que em muitas zonas urbanas a presença do castelhano nom é sensivelmente menor que a que poda ter em Logronho ou em Guayaquil. A presença do galego nessas mesmas zonas urbanas é sensivelmente insensível. A do inglês é residual.

Portanto se as linhas estratégicas que guiassem o nosso governo fossem a melhor gestom possível dos recursos e potencialidades do território e sociedade que administram, as percentagens teriam de ser diferentes. O galego teria de ter umha quota sensivelmente maior e nom só. Teria de haver horas dedicadas a garantir que o conhecimento passivo do português do Brasil e de Portugal, que tam útil foi para alguns galegos, fosse estruturalmente útil. O galego é um recurso que nom tenhem em Logronho para aproveitar a oportunidade da língua do Brasil e de Portugal. Oportunidade que passa polo facto de as pessoas que estám a ler este texto (capacidade passiva) tenham a capacidade de o escrever e o ler quer à brasileira, quer à portuguesa (capacidade activa). O seu Curriculum Vitae ia agradecê-lo.

Parece, no entanto, que o que guiou o nosso governo nom foi a melhor gestom, tecnicamente falando. Parece, polo contrário, que foi agradar certos grupos sociais internos e sobretudo externos assim como agradar-se a si próprio. Aerogeradores sem vento nom dam muito jeito. E vai tanto calor

(Janeiro 2010)

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One Response to 33% Logronho

  1. Alberto says:

    O texto e a comparação: magníficos
    O de sensiblemente insensível: estupendo
    O doaerogenerador sem vento não tem jeito: fantástico
    O de vai muito calor: soberbio

    Gostei muito. Parabens

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