Expetativas

Entre 1968 e 1970, o antropólogo John U. Ogbu fijo um trabalho de campo em Stockon, Califórnia. O foco da investigação era o fracasso escolar dos negros num bairro multi-étnico. Para a classe média branca, a raiz do fracasso residia quer na pobreza cultural em que viviam estas comunidades, quer numa inferioridade intelectual intrínseca a elas.

Ora, o professor Ogbu tinha uma característica “intrínseca” que o fazia contornar estas análises: ele não era norte-americano mas nigeriano. Logo se apercebeu de o esquema não ser a negritude, já que os emigrantes africanos apresentavam um sucesso escolar inclusive maior que os brancos de classe média. O caso presente de Barack Obama ilustra bem isto.

Ele descobriu que os estudantes negros achavam que investir esforços na escola não prestava. Esta expetativa nascia do que lhes fora transmitido polos seus progenitores e a deles nutria-se, seja dito de passagem, das suas experiências vitais.

E agora, reconheçamo-lo, é difícil não fazer uma projeção sobre a Galiza e a sua língua. Eu não me resistiria.

A questão é de expectativas. Que esperam os pais galego-falantes que educam os seus filhos em castelhano? Quais as suas experiências?

Ou também, por que nos movimentos de naturalização do galego há uma percentagem enorme de neo-falantes? Por que eu, viguês, educado em castelhano, de pai castelhano, quando decido mudar de língua não tenho grandes atrancos em aderir à estratégia luso-brasileira enquanto outras pessoas amigas, mas de áreas rurais, “não-o-acabam-de-ver”.

E já para acabar (estou a exceder os 1.400 caracteres): quais as expectativas das elites galegas? Quais as expectativas das elites nacionais galegas para a nossa língua? Há algum nigeriano aí? Confio que sim.

Outubro 2009


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