Umha língua nom é…

Estamos num concurso televisivo do tipo 1 Pergunta com 3 Respostas. A dada altura, a apresentadora olha para o ecrám e lê em voz alta: umha língua nom é…. As respostas possíveis som três: Pepino, Comunicaçom, Identidade.

É habitual usarem-se metáforas biológicas para descrever a realidade linguística. Costuma fazer-se por duas razões básicas, por afám pedagógico e porque sempre se tem feito assim. Este segundo argumento, como sabemos, nom interessa lá muito.

Como as línguas som seres vivos, “venhem” de outro ser vivo, e assim o galego vem do latim e o português vem do galego, o que nom impede que o português e o galego sejam línguas irmás, o castelhano primo de ambas, o francês umha sorte de primo segundo e o spanglish, supomos, um filho ilegítimo. Como se chama o filme? Paixom de genealogistas.

Outra variante desta metáfora pedagógica gira em volta do ítem “Evoluir”. Da mesma forma que os Neardentais evoluíram de forma diferente que os Homo Sapiens, com a mesma “naturalidade” e “irreversibilidade”, o galego e o português evoluíram de forma autónoma. De aqui à teologia, auto-estrada sem portagens.

O inconveniente fundamental de confundir umha língua com um pepino é que obviamos que as línguas som realidades sociais, e som as sociedades e as suas elites as que as constroem, nom os genomas. Seja dito de outro modo: umha língua nom é um pepino. Se o que se trata é de pedagógia… é plasticina.

Abril 2012

 

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Palavras estranhas que nom nos pegam

  • - Olá, como está a avó?
  • - Está bem, só se queixava de que tinha… como era que dizia?… umha palavra rara das que usa ela….bom, que lhe picava.
  • - Comichom
  • - Ah, sim, comichom.

Esta conversa decorreu na Galiza e, com milhares de variantes, acontece todos os dias. Vem a evidenciar um dos sintomas da fraqueza social da nossa língua: as palavras que som diferentes que em castelhano sofrem erosom e desaparecem. A estratégia diferencialista implementada a partir das instituiçons parece nom ter tido muito sucesso em reverter esta situaçom. De resto, nom admira, os vimes som os que som.

Na cidade da Corunha, recentemente, umhas moças iam a cantar a viva voz: Nossa, nossa, Assim você me mata. Ai se eu te pego, ai ai se eu te pego. Delícia, delícia. Assim você me mata. Ai se eu te pego, ai ai se eu te pego. Depois faziam comentários na sua língua pessoal, o castelhano.

Saberiam que Pegar quer dizer Apanhar e nom Bater? Sei lá, mas se tivessem curiosidade, e pegassem num dicionário, poderiam comunicar com a avó que tinha comichom.

Março 2012

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Que fizeste na guerra, paizinho?

Com este título, o realizador Blake Edwards construiu umha brilhante comédia em tempo de guerra. Um capitám americano é encarregue de conquistar umha estratégica vila italiana. As tropas locais estám dispostas a render-se na condiçom de poderem realizar um grande festival regado com muito vinho.

O livro que vos quero encorajar a ler, percorre também a senda bélica. Guerra de Grafias, conflito de elites, forma parte da tese de licenciatura de Mário Herrero e é o antecipo da segunda parte sobre a substituiçom do galego e a normalizaçom do espanhol na Galiza contemporânea, cuja ediçom está prevista para finais deste ano.

Quando a tese de Mário Herrero caiu nas minhas maos, fiquei a pensar: este trabalho tem de ser editado. A oportunidade apresentou-se com a Coleçom Através da Língua, umha das quatro coleções da Através Editora, carimbo livresco da AGAL.

Na verdade, um ensaio pode vir a encher um espaço vago ou a oferecer novas perspetivas sobre um dado tema. O presente livro está decididamente na primeira categoria. O grosso das pessoas nacionalmente galegas, a priori curiosas pola língua da Galiza, desconhecem todo o processo que levou a que o modelo de língua que emana das nossas instituições, elaborado polo Instituto da Lingua Galega (ILG) ocupasse esse lugar central. Isto tem-se traduzido na legitimidade deste modelo diferencialista e a imagem de outsider do modelo reintegracionista.

Guerra de Grafias descreve os autores e os grupos em volta desta guerra, centrando-se nas décadas de 70,80 e 90 e partindo de umha análise glotopolítica, isto é, as relações entre política (em todos os sentidos) e língua. Neste livro desfilarám os protagonistas desta guerra através das suas ações e também, e isto vai aliciar o(a) leitor(a), através dos seus discursos. Afinal, som as nossas palavras e ações os que nos descrevem e nos colocam num ou noutro lugar do mapa.

Guerra de Grafias mostrará, como no filme de Blake Edwards, que a norma ILG-Rag nom foi concebida para umha guerra a sério… essa é a razom central do seu “êxito”.

 

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Como se siente ahorita?

Na hora de avaliar se umha língua está, na verdade, a funcionar como tal do ponto de vista social, é comum recorrermos a muitas variáveis: presença nos mass media, nos sectores económicos, nas cidades… Umha outra variável e a língua dos forâneos, nomeadamente, no caso galego, dos que chegam fora do Reino de Espanha.

No Quebeque, por citar um caso, a maioria dos imigrantes acabam por aprender francês num prazo relativamente curto. Nom por acaso, na Catalunha, as campanhas de divulgaçom social do catalám costumam incluir pessoas com traços físicos que denotam a sua origem africana ou asiática. Na própria Galiza, o vídeo do Modelo Burela provoca um calafrio de satisfaçom quando aparecem escolares de origens mui diversas a falarem a nossa língua.

Esta semana levei a minha avó de 94 anos a urgências. A facultativa que me atendeu era de origem americana, dalgum país de língua espanhola. A conversa nom correu muito bem, essencialmente porque nom me entendia, o que me obrigou a falar num formato de portunhol (Podia agora divagar sobre os direitos dos cidadaos e as exigências que a administraçom galega devia colocar os seus funcionários).

A médica dirigiu-se à minha avó e perguntou-lhe, sem obter resposta, até três vezes:

Como se siente ahorita?

Se a sinceridade é permitida, mal.

Fevereiro 2012

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Faxín / Fagim

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A língua de Consuelo

É comum afirmar-se que as fronteiras mais antigas da Europa são as existentes entre a Espanha e Portugal e que estas viriam a ser “quase” inalteráveis desde a idade média. Esse “quase” transparenta pequenos movimentos de fronteira que provocaram a criação de ilhas lusófonas no Reino de Espanha, algumas das quais chegaram até os nossos dias.

 Em 2009, três investigadores galegos, reunidos no coletivo glu-glu, decidiram visitar essas ínsulas para conversar e gravar as pessoas que ali moram e ainda falam português. Esse trabalho transformou-se num documentário, de nome Entre Línguas, que recentemente foi disponibilizado na Net.

Subim ao youtube um dos vídeos que mais me impactou e que aparecem nos extras. Nele entrevistam uma mulher idosa, de nome Consuelo, e que nasceu e mora em Almedilha, província de Salamanca.

 Animo o leitor, a leitora, a visionar o vídeo, sobretudo entre os minutos 3:30 e 5:00 e que repare em dous aspetos: como fala a Consuelo? Que fala, que nos está a contar?

 A respeito da forma, de como fala, reparamos que o seu “português” recolhe fenómenos fonéticos (a gheada) e palavras (bueno) que não existem em nenhuma variante de português de Portugal. De facto, se eu não tivesse advertido do caráter lusófono da Consuelo, todas nós coincidiríamos em que a simpática mulher é galega e o debate divagaria, talvez, em volta do seu lugar de procedência. Ora, talvez algum de vós desconfiasse da sua galeguidade polo uso de palavras que na Galiza só usam os ditos reintegracionistas, como Notas em lugar da forma castelhana Billetes para se referir ao dinheiro em formato de papel.

 Ora, mais interessante ainda do como é, é o que ela diz. Ela afirma que sempre fala português e que quando vai a Coimbra, à Guarda, a Santiago de Compostela ela não muda o seu registo… porque, afinal, nesses lugares também falam português. Na verdade, o silogismo é simples. Se eu falo X nos lugares Z, Y e G, e eles respondem-me no que eu falo, nesses lugares também falam X. Portanto, os galegos falamos português. É duma simplicidade maravilhosa.

 Na Galiza temos tendência a decalcar a fronteira política sobre a linguística tornando a nossa língua mais pequena e fraca, com os resultados que todas sabemos e sem saber mui bem que ganhamos com isso. A Consuelo não transita por aí porque ela tem uma vantagem sobre todas nós: não passou polo sistema educativo galego.

http://sermosgaliza.com/?p=643

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Dous anos para perder trinta.

Primeiro momento, ano 1980. Som aprovadas as Normas Ortograficas do Idioma Galego, de tendência reintegracionista e ortografia espanhola, elaboradas pola Comision de Linguistica designada pola Conselleria de Educacion e Cultura da Xunta de Galicia. Da Comissom formavam parte representantes de ambas as sensibilidades a respeito da nossa identidade linguística.

Segundo momento, ano 1981. Eleiçons ao Parlamento da Galiza: Alianza Popular (26 assentos), UCD (24), PSOE (16), Bloque-PSG (3), Esquerda Galega (1), Partido Comunista de Galicia (1). Presidente: Gerardo Fernández Albor, de Alianza Popular.

Terceiro momento, ano 1982. Decreto 173/1982 sobre normativizacion da lingua galega oficializa as Normas Ortográficas e Morfoloxicas do Idioma Galegoelaboradas nesse mesmo ano por umha Comision Mixtaformada por representantes do ILG (Instituto de Lingua Galega) e a RAG (Real Academia Galega).

Três anos, em termos históricos, nom é assim muito tempo mas é o suficiente para alterar os mapas da história e, o que é pior, os mapas mentais de 30 gerações de galegas e galegos

Dezembro 2011.

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Agal, reintegracionismo e futuro

A Agal e o reintegracionismo merecem umha história. Ora, qualquer observador superficial pode entrever um alargamento do movimento social que vive a nossa língua como sendo mundial, superando o esquema pouco interessante das quatro províncias.

Cada vez é mais difícil reduzir-nos a estereótipos, seja ao formato académico ou ao soberanista. Para isto têm contribuído muitas entidades sociais e muitas pessoas individuais cuja açom tem tornando o nosso movimento mais rico, mais profundo e mais imprevisível.

Umha das grandes apostas do atual conselho da AGAL foi no capital humano profissional. A nossa estratégia tem sido combinar o capital humano profissional em áreas chave como a própria direçom, com a voluntário, presente em todas as secçons. Nom por acaso, a Agal deve ser umha das associaçons mais ricas em envolvimento dos seus associados e associadas.

Para crescermos, a Agal e o reintegracionismo todo, precisamos de mais recursos, quer financeiros, quer humanos. Precisamos de pessoas que tenham em foco o avanço da estratégia luso-brasileira. Para abordar esta necessidade, na AGAL, estamos a elaborar umha Campanha de Filiaçom que sairá à luz em começos de 2012, dirigida a pessoas que seguem os nossos passos e aderem à nossa estratégia mas ninguém as convidou, ainda, a fazer parte do nosso projeto.

O resultado desta campanha será investido em capital humano profissional para poder fazer MAIS e nas melhores condiçons porque o futuro está aqui.

Quanto ao presente, está a mostrar que a estratégia autonomista, a que se está a implementar a partir das instituiçons, tem um alcance limitado senom recorre a ferramentas, discursos e óticas da estratégia lusófona. Felizmente, há cada vez mais pessoas nas equipas de NL a tomar consciência disto e a Agal pode ser, já está a ser, um bom centro de recursos.

O mais atrativo que nos depara o futuro é a emergência do Brasil, portanto da sua/nossa língua. O Mundial de futebol, as Olimpíadas e a escalada em PIB do gigante brasileiro vam tornar a língua da Galiza umha vantagem competitiva como antes nunca tinha acontecido. Em ambientes onde era vista como umha incomodidade, começará, já está a o fazer, a ser percebida como umha fortaleza e umha oportunidade.

A questom é se somos capazes de aproveitar essa maré ou se deixamos que passe ao lado. Creio que nom seria exagerado dizer que o futuro da nossa língua e o desenho do nosso mapa linguístico a médio prazo vai-se jogar nos próximos anos.

Ligar o Brasil ao galego, ao português da Galiza, será o grande desafio a curto prazo do reintegracionismo e das entidades que promovem a nossa língua, seja da estratégia que for. Em todas as dinâmicas sociais, políticas e económicas que se vam criar, a Galiza e a sua língua, devem ter um lugar de destaque.

No Conselho da Agal estamos a desenhar campanhas e recursos para tornar evidente, Ops!, o que está oculto. O nosso alvo tem de ser o cidadao comum e as elites que tomam decisons.

O atual Conselho tem demonstrado que quando a atitude é a certa, os muros passam a ser portas que se abrem sem grandes dificuldades.

O reintegracionismo, em si, tem demonstrado que se, em lugar de lamentos, debates intermináveis e exaltaçons do ego, apostamos por FAZER, a nossa vida é mais rica e a saúde social da nossa língua é melhor.

A nossa língua éMundial.

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Quotidiano

É sábado e a Marisa ergue-se às 10:00. O despertador canta aquilo de “Avião sem asa, fogueira sem brasa…” da maravilhosa gaúcha Adriana Calcanhoto. Com a melodia na cabeça toma duche e depois vai até à cozinha preparar o almoço.

Como fai regularmente, abre o Chuza para ver as notícias selecionadas pola comunidade, especialmente as de Galegoman. No jantar com a malta poderá contornar os temas enlatados e bater papo sobre temas originais, mais oxigenados.

Pega no carro, acende o rádio e sintoniza Galicia por diante, umha entrevista dirigida por Belén Regueira sobre novas profissons. Fai vários recados e vai jantar com o pessoal, onde uma das notícias do Chuza provoca uma conversa intensa dessas do tipo: temos-que-salvar-o-mundo.

De tarde, nom deveria porque é sábado, mas quer preparar uma boa aula sobre história medieval. Abre a wikipédia e procura um artigo sobre Joana a Beltraneja, onde descobre que em Portugal recebe o nome de Joana de Trastâmara ou a “Excelente Senhora”… sabemos como é, a história é de quem a escreve.

Gosta de ouvir música enquanto trabalha, abre a Cotonete e cria uma rádio com Buraka Som Sistema. Na verdade, nunca soubem como é capaz de trabalhar com o Kuduru de fundo… mentes som insondáveis.

Som já às 20:00 horas e duvida entre sair com o pessoal a tomar um licor café ou ficar na casa a ler um livro… ganha a leitura, por uma vez. Pega no último livro da Trilogia Millenium, A Rainha do Castelo de Ar, está mesmo enganchada e hoje dará cabo dele.

Um dia qualquer, de uma pessoa qualquer, cada vez mais comum na Galiza.

novembro 2011

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Estaçons de Comboio

Comboio Vigo-Santiago. Um homem e umha mulher por volta dos 60 anos vam a conversar. Tinham subido em Vigo e acabarám por descer em Ponte Vedra. A conversa flui sobre o comboio e as diferentes estaçons da rede galega. Ambos discursam num castelhano mui genuíno com umha ressalva. Quem fornece mais informaçons é o homem, que recolhe o seguinte hábito: quando se refere às estaçons citadinas (Vigo, Ponte Vedra, Santiago) usa o castelhano mas quando fala das paragens mais pequenas (Guilharei ou Cesantes) recorre ao galego.

Para esta pessoa, e sabemos nom é um caso isolado, o dialeto de Burgos (diga-se castelhano) tem umhas associaçons e o da Galiza tem outras. O esquema nom é mui diferente das cores do cabelo, o tipo de automóvel ou o celular (antigamente era mais o relógio).

Assim sendo, há paragens mais interessantes do que outras mas tudo depende das pessoas que pegarem no comboio.

Há pessoas que nom descem em certas estaçons porque acham serem um problema e que deveriam ser eliminadas da linha porque som um atraso. Para outras pessoas, polo contrário, som a quinta essência que justifica a existência de toda a rede. Há outro grupo a julgar que as estaçons devem ser conservadas como uma peça de museu: ver mas nom usar. Por fim, estám os que se sentem afortunadas porque o comboio leva-nos a lugares distantes que nom aparecem no mapa oficial. Como o vives tu?

Outubro 2011

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